4. BRASIL 28.8.13

1. TERRORISMO INGLS
2. AS CONSPIRAES DE SERRA
3. PARA SAIR DO ISOLAMENTO
4. AS PEGADAS RECENTES DO CARTEL
5. A CONTA SECRETA DO PROPINODUTO

1. TERRORISMO INGLS
Deteno de brasileiro em Londres expe mais uma vez a arbitrariedade e a arrogncia do governo britnico. Revela tambm que as autoridades esto dispostas a tudo para impedir a divulgao de documentos obtidos pelo ex-espio Edward Snowden
Mariana Brugger e Mariana Queiroz Barboza

No tinha mais do que sete metros quadrados a sala branca e sem janelas em que o estudante carioca David Miranda ficou confinado nas quase nove horas em que permaneceu detido no Aeroporto de Heathrow, em Londres, no domingo 18. Em escala na capital britnica, Miranda voava de Berlim com destino ao Rio de Janeiro. Logo no desembarque, foi abordado por policiais. Me levaram para essa sala onde no pude falar com ningum, disse  ISTO (leia entrevista). O contato com um advogado s aconteceu oito horas depois. quela altura, seu companheiro, o jornalista americano Glenn Greenwald, com quem  casado h nove anos, j havia mobilizado o governo brasileiro por sua liberdade. Mais do que um reprter radicado no Brasil, Greenwald est por trs da srie de artigos publicada, desde junho, pelo jornal britnico The Guardian e que revelou o amplo esquema de espionagem de cidados promovido pela Agncia de Segurana dos Estados Unidos. Incapazes de calar Greenwald, os britnicos foram atrs de um alvo fcil com o lamentvel propsito de intimar.

LIVRES - David Miranda ( esq.) e Glenn Greenwald se reencontraram no Rio: no Brasil, eles se sentem seguros

A justificativa usada para a deteno de Miranda foi suspeita de terrorismo. Para verificar isso, no seria necessrio tanto tempo. Segundo balano do prprio governo britnico, 97% das pessoas detidas sob o artigo 7 da lei de terrorismo, de 2000, so interrogadas por menos de uma hora. No perodo em que ficou sob as ordens de seis agentes, Miranda diz que foi questionado sobre tudo, menos terrorismo. Entre os temas que interessavam aos britnicos, estava sua relao com Greenwald, com a documentarista Laura Poitras e com o ex-tcnico da CIA Edward Snowden. Laura, indicada ao Oscar pelo filme My Country, My Country sobre a ocupao do Iraque, trabalha h quase dois anos num documentrio sobre espionagem e ajuda Greenwald na divulgao dos documentos secretos entregues por Snowden. Era com ela que Miranda tinha ido se encontrar em Berlim. Se eu fosse americano, isso no aconteceria, diz o estudante. O brasileiro tambm foi perguntado sobre os motivos dos protestos no Brasil.  difcil imaginar um cenrio em que um americano fosse questionado, por exemplo, sobre as razes do movimento Ocupe Wall Street, que tomou as ruas dos EUA em 2011. O porta-voz da Casa Branca negou qualquer envolvimento com o caso, mas disse que o pas foi avisado com antecedncia.

Embora a viagem tenha sido paga pelo The Guardian e Miranda trouxesse na bagagem arquivos que ajudariam no trabalho de Greenwald, o papel do estudante nas revelaes que irritaram os EUA e a Europa  nfimo. Estudante de marketing, Miranda diz ajudar nas estratgias de divulgao das reportagens e de livros escritos pelo americano. Ele  meu companheiro e, como tal, apoia tudo que fao, diz Greenwald. Mas acho que nunca viu nenhum documento. Na tentativa de se livrar das ameaas de priso por falta de cooperao, Miranda entregou computador, celular, pendrives, smartwatch, HD externo, videogame e cartes de memria, junto com todas as suas senhas pessoais. O material apreendido ficar com a polcia at o dia 30.

DRACONIANO - O primeiro-ministro britnico, David Cameron, ordenou ao jornal "The Guardian" a destruio dos arquivos sobre espionagem

Restam poucas dvidas de que o caso foi um constrangedor abuso de poder, com repercusso at no parlamento britnico, que abriu um comit para estudar as circunstncias da deteno. David Anderson, ombudsman da lei antiterrorismo da Gr Bretanha, achou o caso incomum e pediu uma investigao para considerar se os poderes foram utilizados de forma legal, adequada e humana. Tambm causa estranhamento a tmida reao do governo brasileiro. Oficialmente, o Itamaraty disse que se trata de medida injustificvel por envolver indivduo contra quem no pesam quaisquer acusaes. O governo convocou ainda o embaixador do Reino Unido, Alex Ellis, e manifestou insatisfao diretamente ao ministro britnico das Relaes Exteriores, William Hague. E foi s. Diante do histrico da arbitrariedade de uma polcia que, em 2005, assassinou o mineiro Jean Charles de Menezes, a reao do Itamaraty e a falta de efeitos prticos de suas medidas soam ingnuas.  preciso agir para que isso no acontea com nenhum brasileiro nunca mais, diz David Miranda.

TRINGULO - O ex-espio Edward Snowden (acima)  quem forneceu os documentos sigilosos para Greenwald e a documentarista Laura Poitras

Na semana passada, o editor-chefe do The Guardian, Alan Rusbridger, aproveitou a tentativa de intimidao de Glenn Greenwald para revelar que, h dois meses, uma autoridade do governo ingls exigiu a devoluo ou destruio do material sobre espionagem em posse do jornal. Identificado pela agncia Reuters como Jeremy Heywood, chefe de gabinete do primeiro-ministro David Cameron, o funcionrio disse que agia em nome de Cameron e ameaou entrar com uma ao judicial contra a publicao. O tom era frio, mas havia uma ameaa implcita de que outros dentro do governo eram favorveis a uma abordagem mais draconiana, escreveu Rusbridger. Em outra ocasio, o recado foi mais claro: Vocs tiveram sua diverso. Agora queremos tudo de volta. A histria acabou com a destruio de arquivos digitais que poderiam interessar aos agentes chineses no poro do The Guardian, em Londres. Alheias  ausncia de fronteiras da era digital, as autoridades acharam que esse seria o fim das incmodas reportagens. Mas Greenwald, que continua vivendo no Rio de Janeiro, a milhares de quilmetros de Cameron, j est escrevendo a prxima  ainda mais agressiva.


2. AS CONSPIRAES DE SERRA
Sem fora no PSDB, o ex-governador de So Paulo tenta sabotar a candidatura de Acio Neves  Presidncia da Repblica e procura criar intrigas entre os tucanos
Mrio Simas Filho

As derrotas nas eleies presidenciais de 2002 e 2010 e na disputa pela Prefeitura de So Paulo no ano passado no reduziram o insacivel apetite poltico de Jos Serra. Os movimentos feitos por ele nas ltimas semanas mostram que o ex-governador tucano no engole a possibilidade de o PSDB ter um candidato  Presidncia da Repblica que no seja ele mesmo. Para realizar seu desejo, Serra no se constrange em liderar uma espcie de guerrilha entre tucanos, conspira contra a prpria legenda e parece no se importar caso sua teimosia leve a uma imploso do PSDB.

INSACIVEL - Para ser candidato a presidente, Serra abre guerra contra o prprio partido, como fez para favorecer Kassab (abaixo) em 2008

Sem o apoio dos principais lderes do partido, visto com antipatia pelos militantes e ainda forado a permanecer na legenda pelos poucos correligionrios que o cercam, o ex-governador paulista tenta agora boicotar a estratgia que o partido, sob a liderana do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, traou para a candidatura do senador mineiro Acio Neves. Um projeto tucano que estava em pauta desde 2010, mas que na ocasio foi contido exatamente para atender  ambio do ex-governador e evitar um racha. H duas semanas, Serra comeou a fazer contatos com diversos deputados e vereadores do partido em So Paulo, onde ainda mantm alguma influncia. Iniciou as conversas deixando claro que poderia abandonar o PSDB e disputar a Presidncia da Repblica pelo PPS  uma hiptese que aterroriza os tucanos de So Paulo, pois visualizam nela a possibilidade de diviso do partido no Estado, com consequncias diretas na sucesso estadual. Em seguida, Serra sugeriu a alguns parlamentares que no participassem das reunies agendadas por Acio no interior do Estado. Desde maio, quando assumiu a presidncia nacional do PSDB, Acio vem trabalhando uma agenda que contempla uma srie de viagens pelo Pas, com o propsito de unificar o partido e buscar a construo de palanques regionais para a sua candidatura. Vamos discutir com Acio a ativao das redes sociais e um calendrio de encontros regionais. Isso est previsto no planejamento estratgico do PSDB, teria respondido o presidente da Assembleia Legislativa de So Paulo, Samuel Moreira.

A conspirao de Serra aparentemente no deu resultado. Acio passou parte da semana passada em So Paulo mantendo diversos contatos polticos. Na noite da sexta-feira 23, por exemplo, o mineiro se reuniu com lideranas polticas de Ribeiro Preto e tinha confirmada a participao na Festa do Peo de Barretos, o maior rodeio do Brasil, no sbado 24. O candidato do PSDB  o senador Acio Neves (MG). Isso j est definido. Serra teve todas as chances possveis e a fila andou. Agora ele precisa deixar de fazer espuma, pois o nosso problema  ganhar a opinio pblica, o que no est fcil, diz o deputado pernambucano Srgio Guerra, ex-presidente nacional do partido e presidente do Instituto Teotnio Vilela. Estamos trabalhando muito para desenhar uma proposta ao Pas e no podemos perder tempo com essas rusgas, completou.

FAVORITO - Acio tem apoio da maioria do partido e concorda em disputar prvia no PSDB 

Alm de procurar lderes para conspirar contra a candidatura de Acio, o ex-governador paulista procura tumultuar o ninho tucano acenando com a possibilidade de prvias para a escolha do candidato. Trata-se de uma frmula que no faz parte do DNA tucano, que desde sua fundao tem as candidaturas lanadas pela cpula, e que o prprio Serra defenestrou, em 2010, quando tinha ao seu lado a maioria dos lderes nacionais do partido. Hoje, segundo estimativas feitas pelo Diretrio Nacional, Acio tem cerca de 98% das preferncias. Diante do desafio, Acio declarou que no v razo alguma para evitar a disputa prvia, desde que o vencido tenha o compromisso de apoiar para valer o vencedor. Serra, ento, mais uma vez optou pela guerrilha e tenta impor condies para eventuais prvias. Nos bastidores, tem dito a alguns deputados que entre as condies estaria a renncia de Acio  presidncia do partido. Na verdade, o gesto de Serra busca apenas criar obstculos para Acio. Ele sabe muito bem que o PSDB no tem um cadastro atualizado de seus filiados, que podem chegar a um milho, e que se as prvias forem feitas apenas com os delegados a vitria de Acio ser esmagadora. Serra tem conscincia de que no haver prvia. Ele est apenas buscando uma desculpa mais nobre para deixar o partido, disse um deputado federal paulista que j esteve muito ligado ao ex-governador.

No Diretrio Nacional, segundo lderes ouvidos na manh da sexta-feira 23, a prvia est descartada. Segundo eles, ainda que seja realizada a consulta, no h garantia de que Serra permanecer no partido e apoiar Acio caso seja derrotado. Em 2008, por exemplo, Serra no fez nenhum empenho a favor do tucano Geraldo Alckmin, que disputava a Prefeitura de So Paulo e perdeu para Gilberto Kassab  esse, sim, com o apoio escondido de Serra. Conhecedor da personalidade do ex-governador, Fernando Henrique Cardoso entrou em campo. Na sexta-feira 23 encontrou-se com Acio e nesta semana ir reunir-se com Serra. Acio tem o apoio da ampla maioria do partido, mas no podemos mais impor uma escolha vertical, disse FHC a um aliado de Acio. O desafio  fazer Serra cumprir o compromisso caso seja derrotado.  


3. PARA SAIR DO ISOLAMENTO
Empresrios reclamam da falta de interlocuo e da ausncia de lideranas expressivas nos ministrios, enquanto o governo diz que discorda de suas propostas. Relao nunca esteve to estremecida, mas Dilma conta com ajuda de Lula para azeitar o dilogo
Izabelle Torres

Conhecido por sua capacidade de dialogar com trabalhadores em portas de fbrica e cidados do Pas inteiro, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva tambm tem dedicado seu reconhecido talento para o dilogo para auxiliar a presidenta Dilma Rousseff em conversas com empresrios. Apenas na semana passada, Lula manteve quatro encontros com donos de empresas de porte. Ouviu crticas  falta de um bom canal de comunicao com o Planalto e os ministros. Tambm escutou queixas de setores especficos da economia, que se mostram inconformados por levarem sugestes e propostas concretas para Braslia e aguardarem meses para obter uma resposta que demora demais para chegar  e muitas vezes nunca chega. Conforme relato de dois empresrios que participaram de dois encontros diferentes, Lula faz o possvel para ouvir e repassar reclamaes que possam ser teis para o governo.

BUSCANDO SADAS - A falta de dilogo do governo Dilma com empresrios ajuda a explicar dificuldades do Planalto no Congresso

Com essa nova face de sua militncia, Lula vem acrescentar-se a outros interlocutores que procuram azeitar a conversa entre o Planalto e os crebros que comandam o PIB. Uma dessas personalidades  o vice-presidente Michel Temer. Para Temer, a falta de dilogo do governo com empresrios ajuda a explicar boa parte das dificuldades do Planalto em enfrentar votaes importantes no Congresso. Conforme disse a um ministro na semana passada, Temer acredita que, sem bons interlocutores no governo, os empresrios passaram a mobilizar seus aliados para agirem diretamente sobre os parlamentares, em movimentos que deixam o governo  margem de negociaes decisivas, o que pode levar a derrotas irreversveis. De fato, os empresrios esto queixosos de interlocuo e da falta de lideranas expressivas na Esplanada dos Ministrios que possam canalizar suas insatisfaes e seus pedidos. Reclamam tambm que boa parte dos atuais ministros j est com a cabea nas eleies do ano que vem, esquecendo-se da gesto das respectivas pastas. Alm disso, o atual cenrio  bem diferente do que vinha sendo desenhado ainda no incio do ano, quando as perspectivas de crescimento da economia pareciam mais risonhas e, antes dos protestos de junho, a viso de uma reeleio sem muitos atropelos parecia ao alcance da mo. Naquela poca a presidenta fez vrias tentativas de aproximao aos empresrios. A ideia, ento, era manter encontros frequentes e ouvir as pautas de reivindicaes com boa vontade. Mas, com o passar do tempo, a presidenta transferiu a conversa para a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e para Guido Mantega, da Fazenda. Embora sejam pessoas de confiana da presidenta, nem Guido nem Gleisi tm autoridade para tomar decises relevantes sem passar por novas consultas com Dilma, num processo que gera novos e maiores desgastes.

O INTERLOCUTOR - Apenas na semana passada, Lula manteve quatro encontros com donos de empresas de porte. O ex-presidente tem feito a ponte do empresariado com o governo

Para complicar, de fato o atual cenrio poltico-eleitoral tambm no ajuda. Quando faltam 13 meses para as eleies de 2014, um nmero cada vez maior de ministros j procura espao, em agendas sempre apertadas, para cuidar de seu futuro no ano que vem, quando iro correr para as urnas em busca de um mandato eleitoral. O prprio governo calcula que pelo menos 11 ministros cultivam essa dupla militncia, num comportamento dispersivo que dificulta, em muitos casos, a oportunidade para um dilogo focado e produtivo. Para evitar desacertos e atropelos quando a campanha j estiver em andamento, Dilma quer fazer a dana de cadeiras  que pode envolver a metade de seu imenso ministrio  logo no incio do ano que vem, o que ajuda a elevar o grau de nervosismo de quem quer sair, daqueles que querem entrar e dos que ainda no sabem o que vo fazer. Nas reunies tudo fica para depois. Tudo depende de um fator externo e impede respostas rpidas. Enquanto isso, navegamos nas incertezas, resume um industrial ouvido por ISTO na condio de ter seu nome preservado. At o Planalto reconhece que h pontos de insatisfao que podem ser atribudos s dificuldades do governo de ouvir, falar e encaminhar as propostas que lhe chegam.

Mas tambm  verdade que h propostas que no andam porque o governo discorda delas e no quer que saiam do lugar. O caso mais recente envolve o fim da multa de 10% sobre o FGTS. Unanimidade entre os empresrios que clamam por uma nova medida que possa reduzir custos, ela  uma unanimidade contra no governo e entre seus eleitores do mundo sindical. Convencido de que a definio de R$ 72 bilhes em desoneraes at o final representa um bom estmulo ao setor privado, num ato de generosidade fiscal jamais exibido por seus antecessores, o governo no quer criar um novo desfalque, estimado em R$ 10 bilhes, com o fim da multa. Alm do ganho econmico para suas contas, h um motivo poltico para isso. Ciente de que o mundo e o pas se encontram sob um regime de turbulncia, o Planalto est convencido de que uma medida que ir baratear as demisses pode servir de estmulo ao desemprego e nem pensa nisso em vspera de campanha presidencial.

SEM FORA - A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, no tem autoridade para tomar decises relevantes sem consultar Dilma

Encaradas como uma fonte segura de estmulos para os meses finais deste ano, as concesses tambm so um obstculo na relao do Planalto com o empresariado. Sob a batuta do secretrio do Tesouro, Arno Augustn, o governo adotou uma linha de controle das taxas de retorno das empresas privadas, especialmente de aeroportos e rodovias. O controle irritou investidores. No incio deste ano, Lula foi procurado por representantes de grandes empresas que pediam a flexibilizao desses acordos. O pleito chegou ao governo, que j concordou em ampliar as taxas de retorno, como um recurso para estimular os investimentos. At agora, contudo, os novos limites no foram definidos.  


4. AS PEGADAS RECENTES DO CARTEL
Ministrio Pblico e Tribunal de Contas de So Paulo encontram fortes indcios de que o esquema do Metr continua a operar. Contratos em vigor firmados por Jos Serra e Geraldo Alckmin sero analisados com lupa

Diante das contundentes provas de que as empresas da rea de transporte sobre trilhos desviaram quase meio bilho de reais no esquema do Metr, o Ministrio Pblico e o Tribunal de Contas do Estado de So Paulo (TCE-SP) correm contra o tempo para apurar se as irregularidades persistem nos contratos ainda em vigor. O objetivo  encerrar o quanto antes a sangria aos cofres pblicos. Na ltima semana, o TCE anunciou que far um pente-fino sobre acordos celebrados recentemente entre as companhias integrantes do cartel e o governo paulista. Para integrantes do MP e do TCE, h fortes indcios de que as fraudes ocorreram em contratos em curso, assinados pelo ex-governador Jos Serra (2007-2010) e pelo atual governador de So Paulo, Geraldo Alckmin. Entre eles esto os acordos para a reforma de trens das Linhas 1 (Azul) e 3 (Vermelha) do Metr paulista, celebrados em 2008 e 2009. Com durao de cinco anos e meio e valores que somados superaram R$ 1,7 bilho, os servios foram divididos entre consrcios formados pelas empresas participantes do cartel. At a denunciante do esquema, a Siemens, faz parte do projeto. Tambm integram o consrcio as empresas Alstom, Iesa, Bombardier, Tejofran, Temoinsa, TTrans e MPE, contratadas para reformar 98 trens.

EM CURSO - Assinados em 2008 e 2009, os contratos ainda em vigor para a reforma de trens das Linhas 1 (Azul) e 3 (Vermelha) do Metr paulista esto sob investigao

O Tribunal de Contas do Estado de So Paulo ir comear a devassa pelos contratos que ainda no foram julgados, entre os quais muitos ainda em plena execuo. Segundo o presidente do TCE, Antonio Roque Citadini, a prioridade ser dada para aqueles firmados com as 18 empresas participantes do cartel. Temos de investigar essas licitaes e focar, principalmente, nos aditivos, diz Citadini. Entre eles est o de fornecimento de 40 trens de oito carros firmado entre a CPTM e a espanhola CAF durante a gesto do tucano Jos Serra. Em um e-mail em poder do Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade), um executivo da Siemens informa aos seus superiores que Serra (PSDB) e seu secretrio de Transportes Metropolitanos, Jos Luiz Portella, sugeriram que a Siemens dividisse o contrato bilionrio com a CAF, vencedora do certame. O governo temia que eventuais disputas judiciais entre as companhias atrasassem a entrega dos trens. A parceria acabou no acontecendo, mas o Estado incentivou a prtica anticompetitiva, responsvel quase sempre por gerar prejuzos ao errio. Esse contrato, financiado pelo Banco Mundial, tambm foi alvo de discusso preliminar no Tribunal de Contas entre a espanhola CAF e a Iesa. A Iesa tentou, sem sucesso, conseguir 30% do valor acertado alegando que tinha fechado um acordo verbal com a CAF em troca de oferecer a sua qualificao tcnica para a companhia conquistar a licitao.

DISCURSO CONTRADITRIO - O governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, diz que vai processar a Siemens, mas no cancelou os contratos da empresa integrante do cartel

Trabalho maior, no entanto, o TCE ter na segunda fase da operao pente-fino. O rgo pretende julgar novamente os contratos antes considerados regulares entre o Metr paulista e a CPTM com as empresas do cartel. A nova verificao, segundo o conselheiro, tornou-se necessria, pois dez dos 16 contratos agora revelados pelo Cade como superfaturados foram julgados normais pelo Tribunal por seguirem os padres tcnicos e de licitao. O Ministrio Pblico de So Paulo trabalha em outra frente. Alm de tentar recuperar os milhes desviados pelo cartel, os dez promotores se debruam sobre inquritos para confirmar os desvios cometidos por polticos e funcionrios pblicos que compactuaram com o esquema. As investigaes so separadas por contrato. O objetivo tambm  a apurao de eventual conduta mproba de servidor, diz o promotor Silvio Antonio Marques. As investigaes se concentram no perodo em que o cartel se manteve ativo, durante as gestes Mrio Covas, Jos Serra e Geraldo Alckmin.


5. A CONTA SECRETA DO PROPINODUTO
Documentos vindos da Sua revelam que conta conhecida como "Marlia", aberta no Multi Commercial Bank, em Genebra, movimentou somas milionrias para subornar homens pblicos e conseguir vantagens para as empresas Siemens e Alstom nos governos do PS
Claudio Dantas Sequeira e Pedro Marcondes de Moura

Na edio da semana passada, ISTO revelou quem eram as autoridades e os servidores pblicos que participaram do esquema de cartel do Metr em So Paulo, distriburam a propina e desviaram recursos para campanhas tucanas, como operavam e quais eram suas relaes com os polticos do PSDB paulista.

A CONTA DA PROPINA - Dinheiro para tucanos saiu da conta Marlia no Leumi Private Bank, em Genebra, na Sua

Agora, com base numa pilha de documentos que o Ministrio da Justia recebeu das autoridades suas com informaes financeiras e quebras de sigilo bancrio, j  possvel saber detalhes do que os investigadores avaliam ser uma das principais contas usadas para abastecer o propinoduto tucano. De acordo com a documentao obtida com exclusividade por ISTO, a at agora desconhecida conta Marlia, aberta no Multi Commercial Bank, hoje Leumi Private Bank AG, sob o nmero 18.626, movimentou apenas entre 1998 e 2002 mais de 20 milhes de euros, o equivalente a R$ 64 milhes. O dinheiro  originrio de um complexo circuito financeiro que envolve offshores, gestores de investimento e lobistas.

Uma anlise preliminar da movimentao da conta Marlia indica que Alstom e Siemens partilharam do mesmo esquema de suborno para conseguir contratos bilionrios com sucessivos governos tucanos em So Paulo. Segundo fontes do Ministrio Pblico, entre os beneficirios do dinheiro da conta secreta est Robson Marinho, o conselheiro do Tribunal de Contas que foi homem da estrita confiana e coordenador de campanha do ex-governador tucano Mrio Covas. Da Marlia tambm saram recursos para contas das empresas de Arthur Teixeira e Jos Geraldo Villas Boas, lobistas que serviam de intermedirios para a propina paga aos tucanos pelas multinacionais francesa e alem.

ELO ENTRE OS ESQUEMAS - Ligado aos tucanos, o lobista Arthur Teixeira, dono de offshores no Uruguai, recebeu recursos da conta Marlia

O lobista Arthur Teixeira personifica o elo entre os esquemas Alstom e Siemens. Como ISTO j revelou numa srie de reportagens recentes, com base nas investigaes em curso, Teixeira e seu irmo Srgio (j falecido) foram responsveis por abrir as empresas Procint e Constech, alm das offshores Leraway Consulting e Gantown Consulting, no Uruguai, com o nico objetivo de servir de ponte ao pagamento de comisses a servidores pblicos e a polticos do PSDB. Teixeira tinha acesso privilegiado ao secretrio de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, e ao diretor de Operao e Manuteno da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), Jos Luiz Lavorente, o encarregado da distribuio em mos da propina.

At 2003 conhecido como Multi Commercial Bank, depois Safdi e, a partir de 2012, Leumi Private Bank AG, a instituio bancria tem um histrico de parcerias com governos tucanos. Em investigaes anteriores, o MP j havia descoberto uma outra conta bancria nesse banco em nome de Villas Boas e de Jorge Fagali Neto, ex-secretrio de Transportes Metropolitanos de SP (1994, gesto de Luiz Antnio Fleury Filho) e ex-diretor dos Correios (1997) e de projetos de ensino superior do Ministrio da Educao (2000 a 2003) na gesto Fernando Henrique Cardoso. Apesar de estar fora da administrao paulista numa das pocas do pagamento de propina, Fagali manteria, segundo a Polcia Federal, ascendncia e contatos no governo paulista. Por isso, foi indiciado pela PF sob acusao de formao de quadrilha, lavagem de dinheiro e evaso de divisas. Fagali Neto tambm  irmo de Jos Jorge Fagali, que presidiu o Metr na gesto de Jos Serra. Jos Jorge  acusado pelo MP e pelo Tribunal de Contas Estadual de fraudar licitaes e assinar contratos superfaturados  frente do Metr.

Para os investigadores, a conta Marlia era usada para gerenciar recursos de outras contas destinadas a abastecer empresas e fundaes de fachada

Para os investigadores, a conta Marlia funcionaria como uma espcie de conta master, usada para gerenciar recursos de outras que, por sua vez, abasteceram empresas e fundaes de fachada, como Hexagon Technical Company, Woler Consultants, Andros Management, Janus, Taltos, Splendore Associados, alm da j conhecida MCA Uruguay e das fundaes Lenobrig, Nilton e Andros. O MP chegou a pedir, sem sucesso, s autoridades suas e francesas o arresto de bens e o bloqueio das contas das pessoas fsicas e jurdicas citadas. Os pedidos de bloqueio foram reiterados pelo DRCI, mas no foram atendidos. Os investigados recorreram ao STJ para evitar aes similares no Brasil.

O MP j havia revelado a existncia das contas Orange (Laranja) Internacional, operada pelo MTB Bank de Nova York, e Kisser (Beijoqueiro) Investment, no banco Audi de Luxemburgo. Ou seja, Marlia  mais um nome prprio no dicionrio da corrupo tucana. Sabe-se ainda que o cartel operado pelas empresas Siemens e Alstom, em companhia de empreiteiras e consultorias, usava e-mails cifrados (leia quadro).

RELAO COM FHC - Um dos beneficirios da propina oriunda da Sua, Geraldo Villas Boas mantinha uma conta conjunta com Jorge Fagali Neto, ex-diretor de projetos do Ministrio da Educao (2000 a 2003) na gesto de Fernando Henrique Cardoso

Os novos dados obtidos pelo Departamento de Recuperao de Ativos e Cooperao Internacional (DRCI) do Ministrio da Justia do combustvel para o aprofundamento das investigaes no Brasil. Alm do processo administrativo aberto pelo Cade sobre denncia de formao de cartel nas licitaes de So Paulo e do Distrito Federal, outras duas aes sigilosas, uma na 6 Vara Federal Criminal e outra na 13 Vara da Fazenda Pblica de So Paulo, apuram crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. Alm de altos funcionrios do Metr, como os j citados Lavorente e Fagali, as investigaes apuram a participao do ex-secretrio de Energia e vereador Andrea Matarazzo, em razo de contratos celebrados entre a Companhia de Energia de So Paulo (CESPE) e a Empresa Paulista de Transmisso de Energia Eltrica S.A. (EPTE).

Na documentao encaminhada pelo DRCI ao MP de So Paulo, a pedido do promotor Silvio Marques, tambm constam novos dados bancrios de vrios executivos franceses, alemes e brasileiros que tiveram algum tipo de participao no esquema de propinas. So eles os franceses Michel Louis Mignot, Yves Barbier de La Serre, Andr Raymond Louis Botto, Patrick Ernest Morancy, Jean Pierre Antoine Courtadon e Jean Marcel Jackie Lannelongue e os brasileiros Jos Amaro Pinto Ramos, Sabino Indelicato e Luci Lopes Indelicato, alm do alemo Oskar Holenwger, que operou em toda a Amrica Latina. Na Venezuela, Holenwger  citado junto a Mignot, La Serre, Morancy e Botto em investigao sobre lavagem de dinheiro, apropriao indbita qualificada, falsificao de documentos e suposta corrupo de funcionrios pblicos do setor de energia.

DA COZINHA DE COVAS - De acordo com o MP, o conselheiro do TCE, Robson Marinho (foto), homem de confiana do ex-governador Mrio Covas, recebeu dinheiro atravs da conta Marlia 

O apoio das autoridades de Frana e Sua s investigaes brasileiras no tem sido to fcil, e a cooperao  mais recente do que se pensava. O Ministrio da Justia chegou a pedir o compartilhamento de informaes ainda em 2008  auge da investigao da Siemens e da Alstom. Mas no foi atendido. Os franceses lembraram que, nos termos do acordo bilateral, a cooperao s pode se desenrolar por via judicial. Dessa forma, foi necessrio notificar o Ministrio Pblico Federal para que oficiasse junto  6 Vara Criminal Federal e  13 Vara da Fazenda Pblica. O compartilhamento s foi efetivado em dezembro de 2010.

A Sua, ainda em maro de 2010, solicitou a cooperao brasileira na apurao das denncias l, uma vez que parte do dinheiro envolvido nas transaes criminosas teria sido depositada em bancos suos. Os primeiros dados, relativos  empresa MCA e ao Banco Audi de Luxemburgo, chegaram ao Brasil em julho de 2011. Foram solicitadas ainda oitivas com determinadas testemunhas, o que foi encaminhado ao MPF em So Paulo e  Procuradoria Geral da Repblica (PGR). Paralelamente, a Polcia Federal abriu o inqurito n 0006881-06.2010.403.6181, mas s no ltimo dia 25 de julho o procurador suo enviou s autoridades os dados bancrios solicitados, por meio de uma deciso denominada conclusive decrees, proferida em 14 e 24 de junho. Foi com base nisso que a Sua j bloqueou cerca de 7,5 milhes de euros que estavam na conta conjunta de Fagali e Villas Boas, no Safdi. Tratou-se de uma deciso unilateral sua e a cifra no  oficial  foi fornecida ao Ministrio da Justia por fonte informal. A Sua s permite o uso dos dados enviados em procedimentos criminais.

